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  Um Comboio chamada Esperança A família é o nosso porto seguro. Pelo menos, deveria ser. O lugar de amor incondicional e aceitação com todos os defeitos e virtudes. Contudo, a realidade está muito longe das aparências. Para alguns, a família não é refúgio, mas fonte de rejeição e de dor. Para outros, o desejo é afastar-se dos parentes, sonhando com a independência. Um sentimento sufocante que conduz, na maioria das vezes, a comportamentos precipitados. "Vieram um dia num comboio chamado esperança. Alguns. Outros saíram de casa, porque os pais não os compreendiam […]. Mas todos eles sonhavam com uma coisa chamada independência", assim foi dito por Maria Judite de Carvalho em "Aldeias de Gente Só", nas suas Obras Completas V (2019). A temática da independência e da rejeição familiar chegou num «comboio chamado esperança», onde a autora referencia os que procuram algo melhor, um novo futuro. A metáfora representa o meio de transporte para uma nova vida, movido p...
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  Os sonhos de Carlota   Na floresta encantada Vive a princesa Carlota. Tão adorada! Com o seu pónei branco, Numa tarde molhada Encanta-se com a trovoada Que tendo evoluído, A deixa assustada, tal é o ruído.   À noite no quarto Aconchego encontra, Com o seu pónei ao lado A trovoada não importa. Carlota, a dorminhoca, sonha e voa Enquanto o mundo lá fora Assusta e atordoa.   Ao amanhecer, sente aroma a bolo no ar, E Carlota desperta pronta para o saborear, Com o seu fiel amigo Que por ela espera lá fora Para poderem viver e sonhar.
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  A inevitabilidade da Morte A sociedade contemporânea parece esquecer o valor da morte e a sua ligação intrínseca à vida. A forma como vivemos importa muito mais do que a maneira como morremos. Fernando Pessoa, poeta do início do século XX, aborda a morte como algo inevitável e como uma presença constante que define e dá sentido à vida, embora de forma complexa. Através do seu heterónimo, Ricardo Reis, influenciado pelo estoicismo, Pessoa encara a morte com serenidade e aceitação, esperando por um futuro que se augura natural e que deve ser enfrentado com calma e dignidade. "Não inquiro do anónimo futuro Que serei, pois que tenho, Qualquer que seja, que vivê-lo. Tiro Os olhos do vindouro. Odeio o que não vejo, Se pudera, Vê-lo, grato o não vira. Se mo mostrarem num quadro, ou o virarem Não tenho o que não tenho, O que o Destino manda, saiba-o ele. A ignorância me basta."   (Fernando Pessoa, 1923, in Poemas de Ricardo Reis)   Enquanto o p...
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Perdida nas tuas páginas Não é apenas o teu cheiro que me prende. O toque, as palavras aladas, os impulsos que me provocas amarram-me. Por causa de ti, desconheço a solidão. Diante de um mundo inóspito, na tua companhia, não há tristeza que me assole. És o meu tugúrio. Naquela manhã, percebi que eras mais do que um mero livro. Acordei para outro dia vazio de memórias, numa casa desconhecida. Tinha-te à minha cabeceira. Diziam-me que perdera a memória num acidente de viação e após dois meses em coma, regressara. Não fosse a tua companhia, Livro, já teria desaparecido.
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  As asas da singularidade Cada um de nós carrega consigo peculiaridades que nos torna únicos. Essas características podem manifestar-se de maneiras estranhamente diferentes, mas são os gostos e perspetivas que moldam a nossa visão do mundo. Permitem-nos sentir e compreender a realidade, através de uma lente única, por uma janela de onde se vislumbra a complexidade que nos rodeia. Procuramos assumir a identidade, sem que isso incomode. Sem ferir por um segundo. Esquecemo-nos de nós. Somos assolados, inúmeras vezes pela vergonha que sentimos em assumir as diferenças, preferindo escondê-las. A tendência é encaixarmo-nos nos padrões estabelecidos pela sociedade. Aquela que convenientemente opta pela normalidade. Mas por que será tão difícil aceitar a singularidade de comportamentos que subtilmente dão notoriedade e abraçam a estranheza? Por que nos sentimos renegados? Esta é uma grande caminhada de reflexão. Desde cedo, somos orientados a seguir as normas e a corresponder às...
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  Serafim, o pinguim   Era uma vez um pinguim amarelo, Brincalhão e o mais belo. Um dia, deu um espirro tão forte, Que a todos assustou. E sem sorte, Os amigos, afugentou.   Seguiu um novo rumo Sem ver um único malmequer, Viu uma joaninha sem pintas Engraçadinha e ladina Com umas antenas distintas.   Dias de cores e risadas, E Serafim nas suas belas caminhadas. Espirrava, brincava num grande frenesim Que a todos contagiava com as suas aventuras Sem fim.
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  Pelas mãos da Ira   A propósito das emoções que habitam em nós, a ira emerge como uma força poderosa, muitas vezes imprevisível e profundamente enraizada. Aquela que nos assola inúmeras vezes sem ser convidada.   Será ela um fogo interno instigador do conflito? E que combustível é este que nos enleva por sendas estreitas?   É verdade que este sentimento pode parecer necessário em determinadas situações, especialmente quando se trata de proteger ou de lutar por algo importante. No entanto, quando não é controlado ou canalizado de forma construtiva, pode revelar-se nefasto.   Na agitação da vida diária, somos frequentemente confrontados com situações que acendem a raiva. A chama da irritação é provocada por panóplias de situações: um engarrafamento exasperante, o testemunho de uma injustiça premente, ou até mesmo um simples desentendimento com alguém próximo. "Não há coisa [como a ira] mais insensata e escrava das suas próprias forças; arroga...